O VIAJANTE


O VIAJANTE Na peregrinação pela estrada da vida existem buscadores que enganam a si próprios. Estes, antes de empreender uma pesquisa séria e aberta, tolhem-se de preconceitos e opiniões próprias, engenhosamente cuidadas. Com isso visam, muitas vezes inconscientemente, chegar num só lugar: àquilo em que já acreditam, que lhes é confortável, conhecido e seguro.

A primeira frase desse tipo de buscador é “eu já sei onde quero chegar”, ao invés de “eu não sei, mas busco saber”. Sua busca é racionalmente construída para não esbarrar em barrancos e fossas, justamente os obstáculos que mais nos ensinam a encontrar nossa essência e sanar nossos defeitos. Assemelham-se a falsos cientistas, que manipulam seu experimento a fim de obter um único e específico fim.

O modo mais claro de reconhecer um falso buscador é a inexistência da humildade. Ele nunca reconhecerá ter tomado eventualmente um caminho errado. O falso buscador não admite trilhar outros caminhos que não os previamente traçados por ele mesmo.

A principal diferença entre os legítimos buscadores e esses últimos é a honestidade em saber ser um não conhecedor, de poder estar enganado. Tão somente essa humildade faculta ao buscador realizar uma peregrinação interior, capaz de enxergar possibilidades para além de suas concepções atuais.

O peregrino verdadeiro parte para sua jornada com coragem. Aceita, sim, que pode precisar mudar de rumo se necessário, que pode enfrentar dificuldades e dissabores. Ele sai de suas terras conhecidas sem esperar encontrar um caminho fácil e confortável. Guia-se, a cada bifurcação de estrada, mais pela intuição própria e espiritual do que pelo saber racional de seu meio. Ele segue com passos paulatinos, seguros, avançando a cada vivenciar, a cada reconhecimento com que se depara.

Ao verdadeiro peregrino, cabe a tarefa de adaptar-se às irregularidades da estrada, ao invés de esperar confortavelmente que alguém lhe aplaine um caminho que não é o seu... No verdadeiro viajante vive a chama da busca pela resposta verdadeira, sua, seja ela qual for, mesmo que independente ou contrária ao seu gosto ou opinião do momento.

Por fim, dentre os muitos falsos buscadores, surge por vezes também a imagem de um legítimo caminhante, transfigurado após suas andanças. Da forma mais natural, ele se permitiu mudar e transformar-se o quanto preciso, reconhecendo nessa sua mudança interior a tão necessária e almejada evolução espiritual.

Caroline Derschner

Roberto C. P. Junior

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