DORES DE GAVETA

12.12.2014

DORES DE GAVETA

Ao sentirmos uma dor física qualquer, sabemos que há algo errado em nosso corpo e logo procuramos resolver o problema. Mas... e quando se trata de incômodos mais sutis e subjetivos? Será que sentimos o mesmo ímpeto para resolvê-los?

 

Aquilo que nos incomoda no íntimo, porém, é justamente o que mais precisa ser entendido e sanado com diligência, para evitar maiores danos. Tal como quando tratamos pequenos arranhões para que não se tornem feridas. Engavetar problemas, longe de resolvê-los, pode ser uma espécie de fuga, uma tentativa de nos acostumarmos a certos aspectos desagradáveis da vida, tentando convencer a nós mesmos que são coisas comuns ou sem importância.

 

No entanto, quando algo nos parece torto, dolorido ou incômodo está seguramente reclamando nossa atenção, para que apliquemos uma possível solução. E normalmente há mais de uma. É preciso apenas que nos movimentemos espiritualmente para descobri-las.

 

Algumas pessoas prendem-se firmemente a seus problemas, cultivando-os cuidadosamente como plantas de estufa, que reiteradamente dão frutos da mesma espécie. São os cismadores, que pouco progridem na estrada da vida, pois mantêm a mente dando voltas em si mesmo. Outras, por sua vez, simplesmente os engavetam com resignação, em sua coleção silenciosa de dores de alma, escondidas nos cantos do pensamento ou do coração, que ninguém vê, mas que continuam existindo.

 

É sabido que coisas engavetadas costumam pegar mofo, e que quando vêm novamente à luz do dia apresentam uma aparência pior do que antes. E quanto mais tempo engavetadas, pior o aspecto. A coragem de abrir resolutamente a gaveta (ou gavetas) de nossos problemas, olhando com calma e boa vontade para o que está empilhado ali, já é o primeiro movimento imprescindível para o início de qualquer resolução. É uma tarefa um tanto difícil para a maioria das pessoas, porém é uma das mais proveitosas para quem está disposto a caminhar no sentido da evolução espiritual. Dito em outras palavras, para quem se propõe seriamente a terminar essa vida melhor do que quando começou.

 

Pessoas que lidam com objetividade com suas dores, sem cismas, tornam-se mais fortes. Uma força que não se confunde com embrutecimento ou agressividade. Não se trata desse tipo de luta, que só impõe a espada, mas que não abre brechas na armadura da alma para uma verdadeira transformação interna. Lutar corajosamente, enfrentar a dor de limpar nossas gavetas internas é um ato sábio, sustentado pelo silêncio que acumula forças, pela boa vontade, pela confiança no auxílio concedido pelas leis que governam a Criação.

 

Ao final de cada batalha, não estaremos mais cansados, ao contrário, mais leves; seremos pedras polidas por vivências. Pedras fortalecidas, mais cálidas e luminosas, mais amorosas e humanas.

 

Contudo, a força que vem do enfrentamento corajoso dos problemas não significa de modo algum criar camadas e couraças de insensibilidade à dor, mas sim fazer de nós aprendizes das leis da vida. Precisamos abrir as gavetas de nossas dores sem medo, antes que se tornem emperradas pela covardia. Ao examinar seu conteúdo e limpá-las completamente, abrimos ao mesmo tempo um espaço necessário para guardar ali as vivências que nos enriqueceram, que nos fizeram progredir um pouco mais na escola da vida.

 

Ninguém gosta de remexer na sujeira, mas a pior maneira de acumular lixo é se acostumar a ele. Quem guarda problemas sem enfrentá-los, obstrui a própria vida, pois trancá-los numa gaveta acarreta estagnação e atrai cada vez mais dores e negatividade, o que requer mais e mais gavetas para guardar todo o entulho crescente e sem fim.

 

Angariar coragem para limpar as gavetas da vida é o primeiro passo para uma existência mais leve, livre e arejada. Toda dor traz em si mesma, de modo natural, a indicação do caminho a seguir, que é o oposto de sua direção, mas que não é o de negação ou fuga, e sim o da resolução definitiva. Então... mãos à obra!
 

 

 

Caroline Derschner
Roberto C. P. Junior

 

 

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