DESPERTAR


DESPERTAR

De que é feita a trama da vida além de uma sucessão de acontecimentos rasos? Comer, beber, descansar, rir, chorar, dormir, acordar... Seria este rol sinônimo de “viver”? Para a maior parte das pessoas, parece que sim.

Estão sempre prontas a dar boas vindas à felicidade, que, no entanto, lhes escapa tão logo adquiram coisas e situações em que ela teria necessariamente de estar presente: um carro novo, uma festa, um novo amor, uma posição de destaque, bens e mais bens de toda espécie. E por fim, acabam por constatar, surpresas, que em matéria de felicidade adquirida não estão em melhor situação do que os que não dispõem de meios para satisfazer desejos de posses.

“Vida” é uma palavra que encerra e sugere um mistério. Mistério que traz um anseio escondido, que busca, ele próprio, manifestar-se: a vontade de estar vivo para além dos sentidos corpóreos, de sentir-se vivo, a vontade de aproveitar a vida como ela realmente deveria ser aproveitada.

Para quem não perscruta para além da vida aparente, o sentido de um despertar interno permanece algo quase incompreensível, pois só desperta quem está dormindo. Mas a quem podemos dar a responsabilidade de um sono perpétuo e paralisante que em tudo resvala, senão a nós mesmos? Quem são os sonâmbulos da nossa existência? Já desde muito um lento e crescente torpor parece invadir tudo e todos, forçando um estado de imobilidade, de tédio e de resignação. Algo segue errado, mas pouco consegue-se agir sobre isso: fome, violência, corrupção, descaso público e miséria são apenas leves reflexos dessa lentidão que a tudo atordoa.

Dormimos para a verdadeira vida quando permanecemos desconectados de sua realidade, de sua real dimensão, de seu verdadeiro significado. Aquele que acordar um dia pela manhã ciente de ser um espírito em desenvolvimento, comprometido com seu auto aprimoramento e também a melhora de seu entorno, este sim consegue mudar de vez o curso diário de seu comportamento, de suas atitudes e de seu entendimento sobre o que lhe acontece ao redor. Este sim injeta cores, luz e movimento em cada passar de hora, pois sabe que, como alguém já disse, a vida não é colorida, mas sim colorível. Este sim olha para o Alto em busca do sentido da existência; este sim tira o empobrecimento de seu dia a dia independente de suas reservas financeiras. Este sim passa a viver de fato, a tocar o coração de seu semelhante com vontade pura, a tirar ensinamentos de cada acontecimento diário.

Tão diferente dos outros que também desejam ser felizes... mas que imaginam encontrar na conquista de algo externo o preenchimento de seu ser, sua razão de viver.

A felicidade está ao alcance da cada um, aguardando. Ela não corre atrás de ninguém. Por justiça e merecimento é necessário um mínimo de movimento em busca dela, que vá além da busca por um passatempo de alegria passageira ou de uma meta terrena. Felicidade tem a ver com o que um indivíduo carrega, por isso ela é individual. Cada um, sozinho, responde por ela, conversa com ela e assim encontra meios para alcançá-la. Felicidade verdadeira não é coisa que se finja com habilidade. Só o espírito desperto torna-se apto a alcançá-la.

“Despertai, ó seres humanos, desse sono de chumbo! Reconhecei o fardo indigno que carregais e que pesa com uma indizível e tenaz pressão sobre milhões de criaturas.” – (Abdruschin - Na Luz da Verdade)

Caroline Derschner Roberto C. P. Junior

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